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Estrangeiro no Brasil | É o tchan: O charme de Salvador

Estrangeiro no Brasil | É o tchan: O charme de Salvador

May 20, 2016
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Mais um texto da série “Estrangeiro no Brasil”. Este texto de hoje foi escrito por Tarique Smith, em 2013. Época em que ele esteve no Brasil fazendo intercâmbio e também estudando português. Com o título “É o tchan: O charme de Salvador”, o seu texto apresenta o olhar atento desse gringo, como o mesmo se identifica, aos preconceitos; aos problemas e às maravilhas dessa terra de todos os santos.

É o tchan: O charme de Salvador

 

Devo começar este post por escrever que sou gringo, venho de fora, e passei um ano inteiro aqui.

Na minha universidade nos Estados Unidos, temos bastante brasileiros. Todos são ricos e são gaúchos, paulistas ou cariocas. São filhos de diplomatas ou engenheiros. Quando eu lhes disse que ia fazer intercâmbio no Brasil, me perguntaram em qual universidade de São Paulo eu ficaria. Ao eu dizer que eu ia para Salvador da Bahia, os rostos deles furaram, me perguntando por que eu iria lá.

“Sô tem Carnaval!”
“Pra que você vai lá? Tem nada.”
“Eles gostam de roubar ali. Perigosa, aquela cidade.”
“São mal-educados!”

E, para ser honesto, esses brasileiros tão preconceituosos tiveram razão. Esta cidade se vende como se somente tivesse Carnaval. Até os próprios baianos, ao saberem que passei Carnaval aqui, me perguntam se gostei do Carnaval. Eles se esquecem das outras cinquenta e uma semanas que passei nessa cidade, e enfocam numa semana só, como se fosse a única que prestará na minha lembrança.

Por ser a terceira cidade brasileira por população, não tem tantas coisas para fazer. Eu plenamente nego a vista que “tem nada”, mas haverá sim dias onde você vai fazer absolutamente nada, por falta de diversão (ou perigo). Existe uma cultura tão forte de praia, que isso é o que fazemos quando não tivermos nada para fazer.

 

A cidade

Essa cidade? Perigosa? MUITA. Graças a Deus, nunca fui roubado, espancado ou mexido enquanto fiquei em Salvador, mas pessoas demais não têm tal sorte. Em frente dos meus próprios olhos, vi pessoas sendo roubadas. Vi brigas entre viciados da rua, vi gringos e brasileiros tentado a comprar adolescentes/crianças para “comer”, porque nessa cidade, a cidade de Carnaval, “pode tudo.” Essa cidade pode ser suja, podre, DURA. Essa cidade me faz lembrar uma frase dita por Antônio Carlos Jobim. Disse:

“Brasil não é para principiantes”

O país é um jogo duro. Imagine o coração dele, o início dele..!

Mas, através de tudo, eu fui. E eu amei. Amei mais que palavras, sejam inglesas ou portuguesas, podem descrever. A única outra cidade que me faz sentir assim é Nova Iorque, e isso é por que é a minha cidade-natal. Nem posso dizer direito o porquê, pois quando tento explicar, as razões parecem tão à toa.

 

O clima

Agora, estamos no tempo de chuva, então a cidade fica molhada de chuva. Mas espere aí. Daqui a pouco há sol, sol e mais sol. Clima influencia pessoas. As roupas aqui são mais coloridas, por que o clima e a natureza aqui brilham com tanta paixão. Sempre tem barulho –de que gosto- porque o tempo permite pessoas ficarem fora de casa por mais tempo. O clima aqui faz a cidade brilhar num jeito que os paulistas e os gaúchos, que SEMPRE vêm para aqui para passarem Carnaval, só podem desejar para as cidades deles.

 

O povo

Pessoas acham que baianos são exagerados, usando palavras esquisitas e únicas à cidade. E baianos são. Baianos não gostam de rir, gostam de MORRER de rir. Não gostam de dançar, preferem SACUDIR a praça. Não gostam de sair com alguém, preferem muito mais namorar, ficarem plenamente apaixonados. Baianos não andam nessa vida, eles pulam, rebolam, correm, gingam, choram e gritam até o fim da corrida. Brasileiros têm o estereótipo de terem mais “calor humano” que, por exemplo, Americanos. Não concordo. Os gaúchos são BEM mais afastados, também os paulistas, mineiros e tal. Mas, baianos são diferentes. Só aqui, nesta cidade “cheia” de mendigos, ladrões e tristeza, que vejo pessoas segurando as coisas das outras no ônibus. Geralmente, quando alguém está em pé no buzu, um sentando vai se oferecer para segurar as coisas daquele que está em pé. Isso aqui é incrível, e diz muito sobre o povo baiano.

 

A história

Essa cidade tem história. Muita história. A primeira capital desse país tão grande e poderosa. O berço do samba, o gênero musical brasileiro que sempre é destacado, mas que qualquer ritmo sertanejo mineiro pode tentar ser. Apesar do que os cariocas pensam, a corte portuguesa passou por Salvador primeiro, ANTES da “Cidade Maravilhosa.” O primeiro elevador brasileiro? É aqui. O início de miscigenação brasileira, uma coisa pela qual o Brasil tem orgulho, começou aqui. É difícil negar o tão importante essa cidade é pelo país. Quando Getúlio Vargas, o ditador brasileiro, começou a vender o Brasil ao mundo, ele usou duas cidades: Rio de Janeiro, a então-capital e a então-cidade mais populosa, e Salvador da Bahia.

 

Os problemas

Sei que esta cidade tem problemas. Problemas graves que temo que não vão ser acertados. Corrupção aqui é tão implantada que faz parte da cultura, as ruas fazem sentido nenhum e é mais fácil achar craque na esquina que pegar um dos ônibus tão sujos e lotados. Esta cidade sofre racismo como nunca vi noutras cidades. Eu, tão escuro que sou, é “moreno” por ser educado e com dinheiro, pois negro aqui tem…sentidos. Mulheres são tratadas como se fossem feitas para sexo somente, e se você é loira, meu Deus. Educação aqui…Já chega. Esta cidade fede quando chove, fede quando tem sol, fede quando EXISTE. Pessoas jogam lixo na rua, prejudicando uma cidade com tanto potencial. Ninguém quer ficar aqui, todo mundo quer ir para o Rio, São Paulo, Minas Gerais ou até fora do país. Por quê? Realmente não tem muito aqui. Praças como Campo Grande, que podem ser lindas e lugares para encontrar os seus amigos, viram perigosas a qualquer momento, mesmo que a polícia se situe na esquina da Praça de Campo Grande. Essa cidade é muito carente e entendo se alguém sai de lá odiando.

 

O que essa cidade, afinal, tem?

Mas essa cidade tem tchan. Tem uma coisa que ninguém pode descrever direito. Todo mundo gosta de ver uma baiana dançando samba. Todos nós queremos ir para Praia de Itapuã, para passar um dia fazendo absolutamente nada. Gostamos de pegar um buzu do Campo Grande até Cidade Baixa, só para ver a vista da baía, que até baianos velhos gostam de reparar e ver. Quem não gosta de bater-papo com aquelas baianas de acarajé? E quando tem Carnaval, todo mundo –Baianos, Paulistas, Ingleses, Americanos, Chineses, Mexicanos- cantam essas letras:

Ah, que bom você chegou

Bem-vindo a Salvador
Coração do Brasil (do Brasil)
Vem, você vai conhecer
A cidade de luz e prazer
Correndo atrás do trio

Quer saber o que os alunos dessa turma de português comentaram sobre o texto dele? Acesse o Blog Vivendo no Brasil para ler os comentários.

Não deixe de ler o texto da semana passada Período de adaptação escrito por um alemão.

Agora, é com você! Gostou do texto de hoje? Deixe um comentário. Vamos interagir! :)

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