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Estrangeiro no Brasil | Rotina em Salvador

Estrangeiro no Brasil | Rotina em Salvador

May 1, 2016
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Salve, salve minha gente!

Para abrir com chave de ouro a série “Estrangeiro no Brasil”, publico a crônica “Rotina em Salvador”, escrita por um francês,  durante o curso de português, em 2013. Seu nome é Mathieu Molitor, ele casou-se com uma brasileira e é professor efetivo da UFBA – Universidade Federal da Bahia.

A leitura desse texto flui de uma maneira quase imperceptível. É divertida e surpreendente a descrição dos lugares, das pessoas e atitudes do brasileiro/do baiano. Mathieu em “A rotina em Salvador” transforma um dia simples, habitual, num dia incrível, repleto de significados.

 

A rotina em Salvador

 

O meu dia sempre começa de maneira brutal com o alarme do meu celular, o qual emite um som muito estridente às 6 horas em ponto. Quando alcanço a cozinha, com a sensação de estar cercado por uma bruma densa, me dirijo para a TV a fim de ouvir Ricardo e Silvana enumerar os acidentes de carros que aconteceram à noite, enquanto verifico se tem alguma coisa no refrigerador que o meu estômago poderia aceitar. No banheiro, sempre tenho um pouco de apreensão, porque tem o famoso aquecedor de banho! Este objeto, que descobri no brasil, obriga a fazer uma escolha : ter só um pouco de água, mas quente, ou ter muita água, mas fria. Em todo o caso, a gente se sente aldrabado.

A caminho da UFBA, na Avenida Oceânica, eu sempre cruzo com as mesmas pessoas. Existe um homem muito velho, talvez 70 anos, de pele branca e muito alto, que anda lentamente no sentido oposto. Provavelmente, ele faz exercício. Entre as duas pistas da avenida, há uma faixa de terra com árvores onde uma mulher de pele preta e roupas vermelhas varre as folhas mortas. O cabelo dela é muito curto, e eu sempre me surpreendo quando a olho : ela é tão gorda, que é difícil dizer onde começam os glúteos e onde acaba a barriga. Ela, realmente, possui uma geometria particular. Mais adiante, há os motoristas de táxi que esperam tranquilamente jogando cartas. Em frente, existe um ponto de ônibus. Lá, eu reparei uma coisa estranha. Normalmente, quando uma pessoa quer que um ônibus pare, ela acena de modo que o motorista possa ver, o que é normal. Mas o engraçado, é que muitas vezes, quando se trata de uma mulher, ela acena e também gesticula com a mão exatamente como faria a asa de um pássaro. Não sei precisamente qual é o objetivo deste extra movimento, mas é claro que não ajuda o motorista  em nada.

Um pouco depois, eu chego na universidade, onde desde o início de Julho, eu tenho feito um curso intensivo de português, nível intermediário, que tem lugar cada manhã entre 9 e 12 horas (com exceção de sexta-feira).  Por isso,  quando chego no meu escritório, mais ou menos às 8:30 horas, não tenho mais tempo para começar a minhas atividades habituais de pesquisador (i.e., facebook, gmail e as notícias). Em vez disso, tenho que terminar o dever de casa antes de correr com pressa na direção ao PAF 3. A turma é constituída exclusivamente (ou quase) de estudantes dos Estados Unidos. Eles são bem simpáticos e um deles é de Nova York. É claro que estou com ciúme, porque adoro essa cidade. A professora não é desconhecida para mim. Ela já foi a minha professora de Português no Básico II. Ela é jovem mas é muito profissional e, claramente, é baiana. Me pergunto quais são a suas atividades além do ensino.

No almoço, eu quase sempre vou para o Maria Bonita (restaurante a quilo) ou uma churrascaria perto das três “mulheres gordas”. Às vezes, eu vou com os meus colegas ou sozinho. De vez em quando, eu almoço também com uma aluna do Instituto de Letras que conheci para praticar o português. Normalmente, deveria-lhe ensinar o francês, mas, não sei o porquê, ela sempre prefere me ajudar, deixando a língua francesa para uma hipotética outra vez. No começo, estávamos conversando exclusivamente em inglês, mas, há pouco tempo, trocamos a língua inglesa em favor da língua brasileira. É uma grande vitória para mim, porque, claramente, a expressão oral do Português é o meu ponto fraco.

À tarde, fico no meu escritório onde as tarefas são múltiplas. Por exemplo, recebi recentemente dois relatórios em relação a um artigo que submeti o ano passado; um dos dois “críticos” (“reviewers” em inglês) da revista correspondente sugeriu que eu fizesse algumas modificações. Obviamente,  modificar equações não é fácil, porque temos que nos lembrar e entender o que elas significavam…  Além disso,  trabalho muito sobre o meu artigo novo. Acho que o assunto é muito interessante : uma ligação nova entre a teoria da informação e a geometria de Kahler.  Eu descobri essa ligação durante o meu último pós-doutorado no Japão (antes de vir ao Brasil), e agora, estou tentando compreender o que ela realmente significa.  Eu suponho que existe diversas relações com  a mecânica quântica. A outra tarefa que me dá muito trabalho é a redação de um minicurso de 20 horas – em português – para os estudantes de mestrado. O assunto é a geometria diferencial, minha especialidade. Se fosse agora, é claro que eu não poderia fazer isso, é cedo demais. Mas com a redação do minicurso, eu vou memorizar o vocabulário específico e as frases que são sempre utilizadas. Depois disso, vou ensaiar diretamente no quadro com os colegas do trabalho a fim de corrigir a minha pronunciação. Vamos ver…

De volta para casa, eu faço algumas comprinhas, procurando principalmente macarrão (isto é o máximo que eu posso cozinhar). O mercado onde eu sempre vou é o “delicatessen” (muito perto da UFBA). Eu devo dizer que o pessoal deste mercado é o pior que a gente pode imaginar! Nenhum sorriso, nenhuma saudação, e até mesmo nenhum olhar na sua direção! É como se fosse totalmente ignorado! Quando cheguei ao Brasil, era muito difícil entender este tipo de comportamento (especialmente depois do Japão). Mas agora estou avisado…

Em casa, eu me forço a assistir TV. Mas desde que a Morena desapareceu (com a novela Salve Jorge), não é mais a mesma coisa, e Amor à Vida  não é tão boa. Felizmente, há Harry Potter, e o prisioneiro de Azkaban que estou lendo em português. Espero que Harry consiga se proteger do Lord Voldemort. Quando eu apago a luz, já são 23 horas. Tempo de dormir…

Gostou da rotina dele?

Compartilhe conosco você também a sua rotina. Vamos lá!

 

Quer saber o que os alunos dessa turma de português acharam? Acesse o Blog Vivendo no Brasil para ler os comentários.

 

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